30 de agosto de 2011

da festa ao passeio

Mrs. Dalloway é tido como o marco inaugural da fase mais modernista, digamos assim, de Virginia Woolf: a exploração de novos recursos narrativos, a experimentação linguística para maior expressividade literária.

Tentei não alisar, não aplainar demais a tradução de Mrs. Dalloway: a infinidade das várias formas de gerúndio; a enorme quantidade de conectivos causais meio de ponto em branco; a pontuação bizarra - falta e excesso; ao mesmo tempo o registro lexical variado, acompanhando cada personagem; a oralidade enorme do texto; interpolações explicativas (com maior ou menor ironia) do narrador e interpolações mentais dos personagens; a recusa constante de usos consagrados da língua, rígidos e/ou ornamentais; a ambiguidade deliberada dos pronomes; a repetição exaustiva dos mesmos pouquíssimos declarativos. Pois, se uma das características distintivas da obra é sua linguagem, por que, para que, como se justificaria "corrigi-la"?

Estou meio insegura quanto ao resultado, claro, mas acho que ruim demais não deve ter ficado. Bom, a ver...

Mas, retomando, Woolf ficou entusiasmada com as "descobertas" estilísticas que tinha feito, e resolveu levá-las adiante: deu um intervalinho, escrevendo coisas mais simples e menores, e se lançou a To the Lighthouse. De fato, você começa a leitura e lá sente a retomada da coisa: a multiplicidade dos focos, a extensão das frases seguindo os pensamentos dos personagens, as conclusões bruscas em frases curtas, a exploração da tremenda elasticidade dos gerúndios, a construção sintática forçando os limites, digamos assim, da correção gramatical.

Achei que gostaria de tentar - pois, no fundo, no fundo, mesmo insegura quanto ao resultado de Mrs. Dalloway, acho que não errei muito a mão e me sinto ainda "possuída" por aquela envolvência, razoavelmente alerta aos procedimentos, com uma certa confiança de que vou conseguir acompanhá-la.

Por isso sugeri o título à L&PM, que logo aceitou, viva! E aí, numa iniciativa que achei muito legal e generosa, Renata Lins (@repimlins) e Fabiano Camilo (@fabjanski) tiveram a ideia de acompanhar esse meu passeio ao farol com a leitura do original, tipo um "clubinho de leitura" junto com a tradução.

Não sei muito bem como vai ser: de minha parte, vou fazendo o que costumo fazer - apresentarei elementos de paratexto (capas, prefácios, edições variadas), dados e curiosidades diversas, links para textos pertinentes que me parecerem interessantes, trechos do original, minhas tentativas e dúvidas de tradução, exemplos de outras traduções. Renata e Fabiano seguirão juntos neste passeio com colaborações correlatas e independentes.

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